Há muito, muito tempo...
«Ao presente, Manolete é a base de todos os cartazes. Há pouco, em Valência, a praça só se encheu nos dias em que ele toureou.
Todas as feiras de categoria incluem duas ou três corridas com ele. Os preços dessas corridas são elevados. E o público exige e protesta se o artista não lhe dá o máximo em cada tarde. E Manolete tem de o fazer, quaisquer que sejam os toiros que lhe saiam, cerca de 25 dias no presente mês de Agosto. Se o não fizer, se não estiver bem sempre, a afición não lhe perdoa. É que ela pôs Manolete tão alto, que ele tem de ser sagrado. E, para conservar a posição, o artista tem de arriscar a vida em cada lance, tem de se superar a si próprio em cada tarde, tem de dar, em holocausto à paixão dos aficionados, todas as gamas da sua arte inconfundível.
As figuras do drama!
O drama das figuras!»
(Da barreira… Crónicas Taurinas por Saraiva Lima)
Quão actuais são estas palavras escritas em 1944.
Morir en la arena…
Morir en la arena,
no debe resultar tan doloroso…
He soñado que los toreros,
antes de subir al cielo,
se sumergen para siempre en aromas,
de rosas y claveles,
de lavandas y romeros…
Luego ascienden al Olimpo del cielo,
Dios los toma de la mano,
y tapa para siempre sus heridas…
La felicidad les embriaga,
y se visten de Esperanza y oro…
¿No resulta hermoso?
Los toreros no mueren,
Ya nacen muertos...
Son los novios del grito y el llanto...
Son los novios de la Muerte...
Lamborghini.
Um 15 de Agosto pouco taurino
O dia mais taurino do ano levou-me, desta vez, a Reguengos, para presenciar a tradicional corrida de toiros. Cartel aliciante, com dois cavaleiros figuras do toureio a cavalo nacional e um jovem que muito promete. Em acesa competição, dois grupos de forcados alentejanos, também com pergaminhos firmados no mundo das pegas em Portugal.
Os toiros pertenciam à ganadaria de Ortigão Costa, estavam bem apresentados, mas justos de forças e para o manso, exigindo labor aos cavaleiros e forcados.
Rui Salvador abriu praça, perante um exemplar muito reservado. Não começou da melhor forma, mas à custa de muito porfiar, terminou em bom plano, saindo por cima do seu oponente, com a colocação de dois bons ferros curtos no final da sua lide. Perante o seu segundo, um toiro que acusou alguma falta de força, as coisas também não lhe correram bem. Sem toiro no momento da reunião, deixou ferros em sortes mais aliviadas (1º e 4º), um deles caiu (o 3º), o que não o impediu de escutar música, e os restantes resultaram corretos na execução.
João Salgueiro veio mostrar que é um verdadeiro génio do toureio a cavalo na lide do seu primeiro toiro, segundo da ordem. Apenas não gosto de o ver conduzir as montadas sempre com as duas mãos nas rédeas. Um grande ferro comprido (o 2º), de praça a praça, bem ao seu estilo e dois curtos (os 1º e 2º) em sortes cingidas e emotivas, com cravagem de alto a baixo e ao estribo, bastaram para construir uma grande lide. Com o toiro a vir a menos, os dois últimos curtos resultaram menos cingidos. Perante o seu segundo, mais reservado, a preferir terrenos de tábuas e a esperar no momento do ferro, o cavaleiro da Valada viu-se obrigado a passar em falso por várias vezes e a ferragem resultou menos vistosa e menos correta. Ainda assim, nos curtos, o 2º e 4º ferros (este último a sesgo) foram dois bons ferros.
João Maria Branco marcou mais alguns pontos na sua ainda curta trajetória como cavaleiro. Senhor de uma boa brega, teve o senão de se preocupar em demasia com o público, para onde corria a provocar os aplausos após cada ferro. No primeiro do seu lote cravou dois compridos e cinco curtos, que alternaram entre o bom (1º e 4ºcurtos) e outros de cravagem mais aliviada nas reuniões. Na lide que encerrou a corrida a toada manteve-se, diante de um toiro distraído e que procurava terrenos de tábuas, sendo de destacar os 2º e 3º curtos, de boa execução.
Para as pegas, dois grupos vizinhos em competição. Pelo grupo de Montemor abriu praça João Pedro Tavares que, mesmo não conseguindo uma reunião perfeita (viajou com uma perna por cima do piton do toiro), aguentou os derrotes altos do toiro, recebeu uma boa ajuda e os restantes elementos fecharam com coesão. João Caldeira saiu para pegar o terceiro da ordem. Muito bem no cite, não conseguiu contudo aguentar os derrotes do toiro e só à terceira tentativa, com ajudas carregadas, conseguiu concretizar a pega. Muito bem, no final, a recusar a volta à arena. Frederico Caldeira foi o escolhido para a terceira pega dos de Montemor ao quinto toiro da tarde. Ao primeiro intento não conseguiu reunir, mas no segundo corrigiu, reuniu bem e consumou uma boa e rija pega, com o grupo a ajudar com muita coesão.
Pelos de Évora iniciou Ricardo Casasnovas que esteve bem no cite, mandou vir, reuniu corretamente e, com o toiro a desviar a trajetória do grupo, consumou uma boa pega, bem ajudado, sem que o seu oponente complicasse. João Pedro Oliveira foi o forcado “eleito” para a pega ao quarto da ordem. O toiro saiu de pronto e o forcado recuou até ao seio do grupo, onde reuniu, consumando a pega sem grandes dificuldades. José Pereira encerrou a tarde de pegas. Muito bem no cite, mandou vir, reuniu bem, fez a viagem até tábuas e aí o grupo fechou bem e consumou uma boa pega.
Destaque, pela negativa, para a entrada e saída de espectadores durante as lides sem que o pessoal de serviço nas portas interviesse. Parece até que os empresários têm maior preocupação com as saídas e entradas de acesso à praça (são essas que “dão” dinheiro…) do que com a saída e entrada nas portas de acesso às bancadas.
Por: Catarina Afonso
Um momento de verdade...
Segunda corrida da feira taurina de Alcochete, integrada nas Festas do Barrete Verde e das salinas, esta também com alguns aliciantes: seis cavaleiros, com conceitos de toureio variados e, destes, um, João Salgueiro da Costa, que tinha curiosidade em ver depois do triunfo recentemente alcançado numa corrida televisionada; uma ganadaria espanhola que pela primeira vez pisava a arena de uma praça de toiros em Portugal; e um grupo de forcados mexicano que ainda não tinha visto atuar.
Os toiros, da ganadaria espanhola de Hato Blanco, com exceção do primeiro e quinto, foram mansos, muito reservados e denotando muito sentido, a criar muitas dificuldades a cavaleiros e forcados.
Rui salvador não esteve nos seus melhores dias, perante um dos toiros que, apesar de tudo, mais colaborou. Não esteve bem nos compridos e, nos curtos nem sempre cravou com correção. Valeu o esforço que sempre coloca naquilo que faz.
Sónia Matias teve pela frente um manso, distraído e muito reservado e fez o que pôde. Da ferragem que colocou, aproveitaram-se os segundo e terceiro ferros curtos de maior correção. Os restantes resultaram pescados e/ou a cilhas passadas.
A Gilberto Filipe tocou o toiro mais pesado da corrida e também um dos mais complicados. Não esteve mal nos compridos, mas, nos curtos esteve francamente mal. Apenas o quinto ferro foi cravado com alguma correção. Os restantes foram sempre colocados bem para lá do estribo e em sortes aliviadas. A finalizar foi protagonista de mais um dos episódios que infelizmente vão acontecendo cada vez com mais frequência nas nossas praças. Depois do primeiro aviso, cravou um palmo que nada adiantou ao que havia feito e, com a conivência do diretor de corrida, tentou, por três vezes(!!!) cravar um par de bandarilhas, que não conseguiu. Reconheceu o que havia feito e, muito bem, recusou a volta à arena.
Tomás Pinto também não teve a lide que certamente desejava. Nos compridos, despachou o primeiro, o segundo foi de maior correção e o terceiro sem importância. Dos curtos, apenas se aproveitou o primeiro. Os restantes foram a cilhas passadas e aliviados (2º, 4º e 5º) ou errou o toiro (3º). Finalizou com um violino à garupa, muito aplaudido pelo público presente.
João Salgueiro da Costa brindou o público com os melhores momentos da noite e, talvez dos melhores da temporada. Três bons ferros compridos abriram a sua atuação, sendo o segundo um grande ferro, pleno de emoção, deixando a impressão de que a colhida seria eminente, tal a justeza da reunião. Um grande ferro que deveria de imediato ter feito soar a música, o que apenas aconteceu (já não é mau…) após a cravagem do terceiro comprido. Nos curtos as coisas não correram tão bem, mas no meio de um ferro de colocação mais defeituosa e de outro em que falhou o toiro, deixou dois ferros muito bons, os segundo e terceiro. Grande lide!...
A encerrar a corrida esteve o também praticante João Maria Branco a quem também já vimos melhor. Ferros pescados (o primeiro comprido), muito aliviados na reunião (1º e 2º curtos) e passados do estribo (4º, 5º e 6º), constituíram uma lide que deixou muito a desejar, pese embora a sua idade e estatuto.
Se para os cavaleiros a noite não foi fácil, para os forcados foi também muito complicada. Iniciou a noite de pegas o forcado Rui Gomes, do Grupo de Forcados do Aposento Verde de Alcochete que concretizou a pega à segunda tentativa, depois de na primeira ter saído já no meio do grupo, que não conseguiu ajudar, já que o toiro metia a cara muito em baixo. João Salvação, cabo do grupo, saiu para pegar o terceiro e mais pesado da noite. O toiro saiu solto e com muita pata e o forcado saiu com um forte derrote. No segundo intento, com braços de ferro, concretizou uma grande pega, com o grupo a mostrar enorme coesão nas ajudas (sem necessidade de ajudas extra…). A encerrar a noite de pegas pelo grupo da terra saltou Marcelo Lóia, que esteve bem no cite e, embora a reunião não acontecesse da melhor forma, aguentou bem a viagem por alto até às tábuas, onde o grupo fechou bem (se bem que, desta vez, com ajuda extra).
Alejandro Martinez iniciou da melhor forma a actuação do grupo de forcados de Queretaro, do México. O segundo toiro da noite saiu com muita pata, o forcado reuniu bem, aguentou fortes derrotes e o grupo fechou com grande coesão nas ajudas. Para a pega ao quarto da ordem foi escolhido Antonio Vera, que, após seis tentativas(!) e com 11 forcados (dos dois grupos) em praça, não conseguiu concretizar a pega, deixando o toiro ir “vivo” para os curros. A Juan Leal coube encerrar a noite de pegas e, com 4 ajudas do grupo de Alcochete (não tinham já elementos suficientes), concretizou a pega ao primeiro intento, bem ajudado pelos restantes elementos e sem que o toiro complicasse muito a sua tarefa.
Por: Catarina Afonso
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