Alcochete, 1 de Maio de 2013






























Que o tempo quente não demore...



Depois de ter presenciado algumas corridas de toiros na vizinha Espanha, nada melhor para iniciar a minha temporada portuguesa do que a vila de Alcochete e a sua tão característica praça de toiros.

Desta vez a minha escolha ficou a dever-se, essencialmente, aos toiros de Infante da Câmara e aos dois grupos de forcados. Se em relação aos toiros as minhas expectativas não foram grandemente defraudadas, no capítulo das pegas o grupo de Montemor não esteve ao nível de outras tardes. Já quanto ao toureio a cavalo, apetece-me dizer que quanto mais vejo, mais saudades tenho do toureio a pé em Espanha…

Os toiros saíram bem apresentados, se bem que díspares de peso (acusaram na balança pesos entre os 480 e os 600 kg) e idade (desde os 4 aos 6 anos). Quanto a comportamento, o destaque vai para o que saiu em 5º lugar um grande toiro, nobre e bravo, a fazer jus ao ditado “no hay quinto malo”.

Rui Salvador continua a acusar algumas falhas de montadas. Mesmo assim, esteve esforçado e conseguiu bons ferros em ambas as lides, intercalados com outros menos conseguidos. Melhor esteve na brega e na preparação das sortes. No primeiro toiro da tarde realce para os 3º e 4º ferros curtos e no último do seu lote ficou-me na retina o excelente 3º curto que merecia música de imediato (mas quem sou eu para opinar sobre isso perante um director de corrida que anda nestas lides há já bastante tempo e que passou alguns anos a pegar toiros?.. Decerto que percebe muito mais de toureio a cavalo do que eu…)

Luís Rouxinol teve, quanto a mim, a melhor lide da tarde, no seu segundo, montado na estrela do toureio a cavalo, a célebre Viajante (é caso para se dizer que quem tem a Viajante toureia e triunfa). Na sua primeira lide destacou-se o segundo ferro comprido, precedido de exímia brega e excelente cravagem. No segundo do seu lote, o primeiro ferro curto foi de levantar as bancadas. Desta vez os pares de bandarilhas, imagem de marca deste cavaleiro, não resultaram como habitualmente.

Marcos Bastinhas destacou-se na lide ao último da fria tarde, com a colocação de três bons ferros curtos (1º, 3º e 4º). Quanto ao resto das suas lides mostrou-se vistoso, com garra e a querer chegar ao público, como é seu apanágio. Um pormenor que retive durante as suas atuações foi o das bandarilhas utilizadas na cravagem dos pares a duas mãos. Pareceram-me mais compridas (o que facilita a “ida” ao toiro) e com menor espessura. Já não chegam as martingalas que constantemente vemos utilizar nas montadas e eis que aparece mais um engano, para não falar do perigo que pode constituir para os forcados (mas, volto a referir, quem sou eu para opinar sobre estas matérias?) …

Quanto às pegas, a tarde começou da melhor forma com uma muito boa pega de Francisco Borges do Grupo de Forcados Amadores de Montemor, com a perfeita marcação de todos os tempos e com o grupo a fechar to muito bem. Frederico Caldeira não conseguiu a pega que por certo desejava perante o terceiro da tarde, um toiro muito reservado, a quem foi preciso entrar nos terrenos e que só saía a toque de capote, Mesmo assim, conseguiu consumar à 2ª tentativa, resolvendo bem o problema que teve pela frente. João Braga não conseguiu dar a volta ao 5º da tarde, que adiantava o piton esquerdo na hora da reunião e só conseguiu concretizar ao 6º intento, uma pega muito pouco ortodoxa.
Os forcados amadores de Alcochete concretizaram todas as pegas ao primeiro intento. A primeira, ao segundo toiro da tarde, esteve a cargo de Fernando Quintela que citou de forma serena, reuniu muito bem e recebeu uma ajuda coesa do grupo. Diogo Timóteo não aguentou bem o toiro, que arrancou com prontidão e mesmo não reunindo da melhor forma, concretizou a pega com boa ajuda dos restantes elementos do grupo. A fechar a tarde de pegas esteve Joaquim Quintela, que citou bem, recebeu ainda melhor, aguentando um ligeiro estranho do toiro ao chegar ao forcado e consumou mais uma boa pega, com o grupo a mostrar grande coesão.

Numa tarde fria, com um público de palminhas, valeu o quinto toiro e a lide que Luís Rouxinol lhe ministrou montado da “grande” Viajante. Esperemos que o tempo mais quente não demore e venha aquecer mais a minha afición…



Por: Catarina Afonso

Amargo sabor de boca


Mais um ano, mais uma corrida em Olivenza. Em tempo de crise, muitas foram as dúvidas na hora de escolher, mas a eleita foi a última da feira, mas em má hora…
Praça cheia, apesar da chuva e do incómodo que é sentarmo-nos naquelas bancadas. Mas a paixão é maior que isto tudo e a ansiedade para que a corrida se inicie é maior que tudo isto.
Mas, desta feita, foi mau demais para o que Olivenza me habituou em anos anteriores. Tudo por culpa dos toiros, chegando a ouvir-se por várias vezes o grito de que quem manda é o toiro e que sem toiro não há festa. Lidou-se um curro de toiros de Zalduendo, muito pobre, de escassa apresentação, manso e com pouca força.

Das faenas da tarde, muito pouco para recordar: o esforço pouco habitual de Morante de la Puebla perante o segundo do seu lote, um sobrero de Garcigrande; a grande estocada de Manzanares ao quinto da corrida e faena de Talavante ao último da tarde em que logrou a única orelha deste pobre festejo.

Perante o primeiro, anovilhado, sem presença, indigno de pisar a arena de Olivenza, Morante pouco pode fazer. Deu um ar da sua graça com o capote e abreviou com a muleta. Silêncio no final para o toureiro e assobios para o toiro no arrastre.
O quarto, um manso perdido, foi substituído pelo sobrero de Garcigrande (falta saber se por mansidão – algo inédito – ou se por algum defeito de visão). Com este Morante esteve voluntarioso e esforçado, mas o sonso astado levou a melhor. No final escutou ovação.

Jose Maria Manzanares nada podia fazer perante o fugidio primeiro do seu lote, que desde que saiu pela porta de chiqueiros se negou à luta, procurando constantemente tábuas, de onde se negava a investir. Culminou com uma boa estocada e foi silenciado o toureiro e assobiado o toiro.
No seu segundo, tão pouco pode brilhar o diestro alicantino. Ligou alguns passes de muleta, sem que o toiro transmitisse. Valeu a grande estocada com que terminou a ingloriosa atuação desta tarde. No final saudou nos tércios a ovação calorosa e carinhosa do público.

A Alejandro Talavante tocou o lote menos mau. O seu primeiro mostrou falta de força e de transmissão, o que o matador aproveitou para o seu toureio de cercanias, arrimandos-se até ao limte e causando a emoção que faltou ao toiro. Matou de pinchazo e descabello, tendo perdido uma orelha.
O último toiro da corrida foi o melhor, demonstrando muito maior mobilidade, génio nas investidas, a pedir contas ao toureiro. Pela direita vimos os passes mais templados da tarde e com maior profundidade. Pela esquerda mostrou-se perigoso. Teve mérito o toureiro que passeou uma orelha (a única da tarde), após ter matar de estocada, depois de pinchar.

Amargo sabor de boca, pois, no final… Foi caso para dizer que corrida de expectação, corrida de desilusão…E que desilusão!





Por: Catarina Afonso

Olivenza 2013



















Há muito, muito tempo...


«Ao presente, Manolete é a base de todos os cartazes. Há pouco, em Valência, a praça só se encheu nos dias em que ele toureou.
Todas as feiras de categoria incluem duas ou três corridas com ele. Os preços dessas corridas são elevados. E o público exige e protesta se o artista não lhe dá o máximo em cada tarde. E Manolete tem de o fazer, quaisquer que sejam os toiros que lhe saiam, cerca de 25 dias no presente mês de Agosto. Se o não fizer, se não estiver bem sempre, a afición não lhe perdoa. É que ela pôs Manolete tão alto, que ele tem de ser sagrado. E, para conservar a posição, o artista tem de arriscar a vida em cada lance, tem de se superar a si próprio em cada tarde, tem de dar, em holocausto à paixão dos aficionados, todas as gamas da sua arte inconfundível.
As figuras do drama!
O drama das figuras!»


(Da barreira… Crónicas Taurinas por Saraiva Lima)




Quão actuais são estas palavras escritas em 1944.

Morir en la arena…


Morir en la arena,
no debe resultar tan doloroso…

He soñado que los toreros,
antes de subir al cielo,
se sumergen para siempre en aromas,
de rosas y claveles,
de lavandas y romeros…

Luego ascienden al Olimpo del cielo,
Dios los toma de la mano,
y tapa para siempre sus heridas…

La felicidad les embriaga,
y se visten de Esperanza y oro…

¿No resulta hermoso?

Los toreros no mueren,
Ya nacen muertos...
Son los novios del grito y el llanto...
Son los novios de la Muerte...

Lamborghini.