Conceder ou não conceder música, eis a questão…




Ainda a temporada vai no seu início e eis que começamos a ver alguma contestação aos diretores de corrida por concederem ou não concederem música no decorrer das lides.
Lembro que, de acordo com o Regulamento Tauromáquico, a banda de música deve tocar durante uma lide, sempre que o diretor de corrida o determinar (artigo 12º). Isto é, cabe apenas e só ao diretor de corrida a decisão de conceder ou não música durante as lides, não referindo aquele diploma qualquer tipo de intervenção ou influência do público nesta decisão, como acontece com as voltas à arena. Claro que todos sabemos que, na prática, não é bem assim (e talvez não deva sê-lo), dado que muitas vezes soa a música por insistência do público e não por vontade do diretor.
E quando deve o diretor ordenar que a banda se faça ouvir durante uma lide? Após a colocação do segundo ferro curto (critério muito utilizado)? Ou a pós o primeiro? Ou, antes, sempre que o cavaleiro/matador o mereça pelo que está a desenvolver durante a lide?
Na minha modesta opinião (e penso que na da maioria dos aficionados), a concessão de música durante uma lide deve constituir um prémio ao labor que o toureiro está a desenvolver, independentemente do número de ferros que foram cravados, e não uma obrigação por parte do diretor de corrida. Claro que isto leva-nos a ter que aceitar a decisão do diretor com toda a carga de subjectividade que lhe está inerente. Ou seja, a música soa muitas vezes (ou deve soar) conforme o diretor gosta ou não do que está a ser feito pelo toureiro na arena, tendo como base o seu gosto pessoal e a sua maneira (subjetiva) de ver o que sucede em praça.
Tem-se dito e escrito que quando o diretor de corrida não determina que a música toque numa lide que o merece (segundo quem fala ou escreve), tem uma grande falta de bom senso, não percebe nada do assunto, etc. Tudo isto pode ser verdade, mas, segundo o que eu penso, depende sempre do gosto pessoal de cada um e não tanto de bom senso, ou de qualquer outro motivo que se possa invocar. E até pode ser, embora não deva, porque existe inimizade entre o diretor e determinado toureiro.
Claro que temos que admitir que, muitas vezes, demasiadas até, ouve-se a banda após um ferro descaradamente colocado para lá da garupa, ou de forma deficiente, quando antes tinha já havido ferros muito melhores…Mas tudo isto acontece porque não existem (e talvez não seja possível que existam) critérios objetivos para premiar com música a atuação de determinado toureiro.
É por isso que a função de um diretor de corrida, além de ingrata, é muito importante na educação do público que preenche as bancadas das nossas praças. Dentro de toda a subjectividade que muitas das suas decisões encerram, deve um diretor, nas decisões que toma, ter sempre em conta o carácter pedagógico das mesmas junto de quem assiste às corridas, não se deixando influenciar nunca por um público que, cada vez mais, o que quer é festa e palminhas durante as lides.
Aliás, olhando para o panorama da nossa Festa, vemos que cada vez mais o público presente nas corridas é um público festivaleiro e cada vez menos exigente para com os intervenientes diretos no espetáculo.
Na verdade, se clamamos por exigência neste mundo dos toiros, não podemos continuamente estar a exigir que a banda toque para acompanhar as palminhas do público…


Por: Catarina Afonso

Memórias


Vila Franca: 3 de Julho de 2005


João Ribeiro Telles

António Ribeiro Telles

Vasco Dotti

Sebastian Castella

54º Concurso de Ganadarias de Évora

Gente dos Toiros

[Vila Franca, 5 de Maio de 2013]


Jorge Faria


Paula Vilaverde

Mãe de Duarte Pinto


Carlos Cunha


Diogo Timóteo e Daniel Silva (GFA Alcochete)


António Cary e André Rodrigues (GFA Portalegre)

José Caceres, Luísa Mendes Jorge e Vasco Lucas

José Luís Gomes


Ana Batista e Orlando Vicente


Joana Andrade


Francisco Portela


José Miguel Martins (GFA Évora)


João Folque

Carlos Teles e António José Pinto

Pegas de tirar o fôlego


Na viagem de ida para Vila Franca dei comigo a pensar quem seria, desta vez, o júri nomeado para a atribuição dos dois prémios em disputa nessa tarde: o de apresentação e o de bravura. E comentei mesmo que, por certo, se iria repetir a “regra” dos últimos concursos e o júri seria constituído pelos próprios ganaderos. É uma boa forma de os responsabilizar e, convém dizê-lo, tem sido, apesar de tudo, a maneira menos injusta de atribuição deste tipo de prémios. E fui acrescentando que esperava que assim fosse e que não voltasse a “antiga” norma de nomeação/indicação de algumas personalidades da nossa Festa para fazerem parte do júri.
Com muita pena minha foi esta última fórmula a escolhida e foi o que se viu…

Mas vamos, em primeiro lugar ao eu me levou aos toiros a Vila Franca: os toiros. O primeiro, com a idade de 5 anos, pertencia à ganadaria Palha, acusou na balança o peso de 560 kg e estava bem apresentado. Foi um toiro muito complicado, que se adiantava uma enormidade e que exigia outras distâncias que não as que o cavaleiro a quem tocou em sorte lhe foi dando.
O segundo da tarde veio da casa Prudêncio, tinha também ele cinco anos, o peso de 580 kg e saiu bem no tipo morfológico da ganadaria. Em termos de comportamento, procurou desde cedo o refúgio das tábuas, mas deixou-se tourear sem problemas de maior.
Em terceirto lugar saiu um toiro da ganadaria de David Ribeiro Telles (que substituía o de Vaz Monteiro que havia sido recusado por falta de peso), que se inutilizou, saindo, em seu lugar, o que estava “escalonado” para sair em sexto lugar e que cabia ao mesmo cavaleiro. Era um toiro de Canas Vigouroux, com 605 kg e que andou sempre a trote, sem se empregar nas sortes e sempre com a cara alta. No final da lide, inclusivamente, descaiu para tábuas.
O quarto da ordem pertencia à ganadaria de Oliveira Irmãos, pesou 545 kg e estava bem apresentado. Foi um toiro que sempre procurou tábuas e donde desferia repentinas arreadas. Um manso perdido…
A ganadaria de Vale do Sorraia enviou à Palha Blanco um bonito exemplar, a fazer lembrar toiros do antigamente. Acusou o peso de 500 kg e foi, quanto a mim, o menos manso da corrida. Acusou alguma falta de força, perdendo as mãos por mais que uma vez, mas colocou alegria nas investidas, perseguindo o cavalo em todos os terrenos. Faltou-lhe, quanto a mim, um pouco mais de codícia no momento da reunião.
O último da tarde, sobrero da corrida e não sujeito a concurso, veio da ganadaria Palha, e pesava 565 kg. Nunca se empregou na lide e mostrou-se desinteressado e com crenças.
No final, o tal júri decidiu, por maioria atribuir o prémio de apresentação ao toiro de Palha, saído em primeiro lugar (o que se aceita) e o prémio de bravura foi para o toiro de Canas Vigouroux (debaixo de uma onda de assobios por parte do público). Em minha opinião, como já referi, o menos manso da corrida foi o exemplar de Vale do Sorraia, mas o mais justo seria este prémio ter ficado deserto (e não sei porque não é habitual ou é proibido não atribuir um prémio quando não há toiros bravos…).

Quanto a atuação dos cavaleiros, Luís Rouxinol não se entendeu com o primeiro, não lhe conseguindo dar a volta, penso eu que por um problema de distâncias que não conseguiu acertar. No seu segundo esteve já mais ao seu nível, deixando três bons ferros curtos (1º, 2º e 4º). Terminou com um par de bandarilhas em sorte sesgada um pouco aliviado.

Manuel Telles Bastos foi, sem qualquer margem para dúvidas o grande triunfador da tarde (e, note-se, que nem sempre tem que haver triunfadores, mas nesta tarde houve…). Iniciou a lide do seu primeiro com três compridos em sortes à tira bem desenhadas e bem ao seu estilo clássico e verdadeiro, para, na ferragem curta dar um verdadeiro recital da arte de bem montar a cavalo e cravar ferros ao estribo, de alto a baixo. Uma grande lide!... No quinto da tarde não esteve ao mesmo nível nos compridos, mas nos curtos voltou a espalhar magia, com uma brega irrepreensível e com ferros em reuniões frontais e cingidas, nomeadamente os dois últimos (5º e 6º).

Duarte Pinto, no primeiro que lhe tocou em sorte esteve bastante desastrado, misturando vários ferros falhados com toques na montada, um deles com alguma violência. Uma lide para esquecer, mas que trouxe ao de cima a grande humildade e sentido de responsabilidade deste cavaleiro, que constantemente pedia desculpas ao público presente. No que encerrou a corrida vimos já um Duarte Pinto mais ao seu nível, com a colocação de um grande ferro curto (o 4º). No entanto, este cavaleiro pode e sabe fazer melhor…

Se no toureio a cavalo tivemos um triunfador, no que toca aos forcados tivemos vários, a começar logo pela pega de Ricardo castelo, do Grupo de Forcados de Vila Franca ao primeiro toiro da corrida. Bem no cite e na reunião, aguentou bem os derrotes do toiro, que se desviou da trajectória do grupo, até embater em tábuas e consumar uma grande pega. Destaque para o 2º ajuda André Matos que, justamente, foi chamado para a volta à arena. O terceiro da tarde foi pegado por Ricardo Patusco à segunda tentativa. Tendo feito tudo bem no primeiro intento não conseguiu aguentar um derrote para o lado, saindo antes de chegar aos ajudas. Retificou e concretizou uma boa pega, com o grupo a mostrar grande coesão. Para pegar o quinto toiro foi chamado Pedro Castelo que efectuou uma pega plena de técnica, se bem que os ajudas “andaram um pouco aos papéis”, antes de conseguirem fechar a pega.

Pelo Grupo de Alcochete foi à cara do segundo toiro da corrida o jovem forcado João Gonçalves que aguentou fortes derrotes e consumou uma rija pega, apesar de um cite algo apressado. A pega ao quarto da ordem foi executada por Fernando Quintela à primeira tentativa, a dobrar Tomás Vale, que se lesionou na primeira entrada ao toiro. Bem no cite, com uma reunião exemplar, aguentou todos os derrotes do toiro e concretizou mais uma grande pega, com o grupo a mostrar grande coesão. Para o último estava reservada a pega da tarde. Se na primeira tentativa o toiro saiu solto e com muita pata não permitindo que o forcado ficasse na cara e concretizasse a pega (saindo este bastante combalido), na segunda entrada ao toiro efetuou a pega da tarde e, até a que poderá ser uma das pegas da presente temporada. Reuniu muito bem, aguentou todos os derrotes e mais alguns, sozinho na cara do toiro, que teimava em fugir do grupo, até que, quase meia praça depois o grupo conseguiu, a custo, fechar este hino ao forcado e à arte de pegar toiros…

E não poderia ter existido um final melhor para uma corrida de toiros que não defraudou o público (com o senão da atribuição do prémio de bravura). Antes pelo contrário, deixou bom sabor aos aficionados presentes, que poderiam ter comparecido em maior número.



Por: Catarina Afonso

Vila Franca, 5 de Maio de 2013